sexta-feira, 24 de julho de 2015

Hidrelétrica de Belo Monte e outros temas do governo petista opõem teólogos da libertação


Desde muito cedo o governo do PT dividiu não só a sociedade brasileira em pobres e ricos, povo e elite, nós e eles etc., mas dividiu a própria esquerda universitária e partidária e também os adeptos e militantes da Teologia da Libertação.
Enquanto alguns desses teólogos assumiram alegremente a defesa e assessoria do governo de Lula como foi o caso de Leonardo Boff, outros entraram de corpo e alma para administração como o caso do Frei Betto que assumiu o comando do Programa Fome Zero; outros preferiram um apoio discreto como no caso de Clodovis Boff outros ainda passaram a criticar o caráter assistencialista e não emancipador dos programas sociais do novo governo como foi o caso de Rosalvo Salgueiro.
Inicialmente estes embates ficavam restritos aos ambientes das faculdades de teologias, das comunidades das religiosas e populares em que militavam, porém aos poucos as divergências foram se manifestando e hoje há um confronto aberto, para não dizer conflito, entre estes nomes que em verdade acabam representando subcorrentes dentro dessa escola teológica.
Clodovis Boff que é irmão de sangue de Leonardo Boff e padre da Ordem dos Servos de Maria fez uma releitura dos postulados da Teologia da Libertação e foi duramente criticado pelos colegas e hoje é tido, por muitos, como um prófuga dessa corrente teológica, muito embora muitos outros ainda continuem defendendo sua contribuição.
Para entender estes posicionamentos é bastante ilustrativo  o embate que ocorreu na página oficial do Leonardo Boff nos tempos áureos de popularidade do primeiro mandato da presidente Dilma Rousseff.
Leonardo Boff havia escrito um artigo criticando a construção da Usina Hidrelétrica de Belo Monte e se solidarizando com o Bispo Erwin Krältler, ao que Rosalvo Salgueiro questionou. 

Veja o diálogo:


Rosalvo Salgueiro:         
04/04/2012 21:11
Meu caro Leonardo Boff, penso que quem defendeu o governo Lula e agora defende e serve ao governo Dilma, é corresponsável nestas agressões. Pra merecer credibilidade, a coerência e o testemunho são indispensáveis!
Rosalvo
Leonardo Boff:                
05/04/2012 8:44
Rosalvo,
VC de que lado está finalmente? Tem saudades das classes dominantes? A Dilma tem a aprovação de 77% dos brasileiros. Isso deveria faze-lo pensar ou julga que o povo é ignorante e nada sabe? Nunca servi a governo e a partido nenhum. O que não me impede de exercer minha cidadania e apoiar um projeto político que significa a ruptura histórica da politica feita pelas elites e para as elites e nunca para o povo. Agora que existem politicas republicanas, cuja centralidade está no social e na inclusão dos 40 milhões que estavam à margem, devemos saudá-las. Desvios e desmandos não podem simplesmente serem tributados à Presidenta. Nunca em governo nenhum a Policia e as investigações foram tão incentivadas a partir do poder oficial.
Espero que não negue estes avanços. Mas a liberdade pertence a cada cidadão
Lboff
Rosalvo Salgueiro:         
17/04/2012 21:10
Caro irmão Leonardo Boff,

Com todo respeito!
Não cultivo a visão dicotômica, seja da natureza, da realidade como um todo ou simplesmente da política. Sei, e até posso concordar, que o fragor da realidade às vezes impõe-nos escolhas que se não estão absolutamente concordes com o que pensamos, são as possíveis e viáveis no momento. Sei também que o exercício do poder, principalmente na escala da Presidência da República, implica em conviver com as contradições. Até aqui, nada a estranhar!
Não tenho saudade da classe dominante, pela simples razão de que saudade se tem de algo ausente, o que não é o nosso caso. A classe dominante continua, como dantes, a exercer o poder em toda sua inteireza em nosso País. Os lucros dos bancos, os “eikes batistas” da vida e o coronelismo nordestino, de roupagem nova é bem verdade, bem o demonstram sem deixar lugar para dúvidas.

Realmente, prezado irmão, vemos e avaliamos o governo de turno de maneiras bem diferentes. Você me pergunta de que lado estou, e eu repondo de modo muito simples:

1- Hidrelétrica de Belo Monte: Estou do lado dos indígenas, dos ribeirinhos, dos animais da floresta, dos peixes e das águas do Rio Xingu. Estou do lado do Bispo Erwin Kräutler e da participação verdadeiramente democrática dos atingidos nas decisões que lhe dizem respeito.
2- Transposição das águas do Rio São Francisco: Estou do lado dos que lutam para que o rio seja primeiro revitalizado para só então contribuir com outras regiões, atendendo principalmente a todos quantos vivam às margens dos tais “canais”. Estou do lado do Bispo Dom Frei Flavio Cappio que, neste momento, encarna e representa o povo pobre e espoliado da região.
3- Necessidade de energia para o desenvolvimento: Estou do lado das tecnologias alternativas, das pequenas hidrelétricas de menor impacto, da energia eólica, da energia de biomassa, da energia solar, etc. Estou do lado que você propôs: de que repensarmos nossa relação com a natureza e a noção de desenvolvimento e consumo.
4- A Mãe do PAC: Estou do lado da decência e da transparência, defendo auditoria independente, CPIs e outros mecanismos de apuração e responsabilização, se possível com cadeia para os culpados. (Corrupção mata!)
5- Os 77% de aprovação da Dilma: Estou entre os outros 23% e não me enganam estes números que em si mesmos não dizem nada: Hitler, Mussolini, Herohito e muitos outros ditadores alcançaram índices ainda maiores de aprovação popular!

Leonardo desculpe-me por meter-me, justo aqui a, a discutir contigo estas coisas, mas é que ainda não sei como nestes temas, alguém pode sentir-se ao mesmo tempo apoiando os dois lados em conflito. Em Belo Monte , assim como em todas as hidrelétricas em execução ou em projeto na bacia Amazônica, no Rio São Francisco, na defesa do Meio Ambiente e da Ecologia, e em muitos outros temas estou convencido que não há como ser as duas coisas ao mesmo tempo. Prometo não continuar incomodando lhe aqui, mas humildemente devolvo-lhe a pergunta.

De que lado você está?
Sobre os teólogos:
Leonardo Boff é o principal nome da Teologia da Libertação, é doutor em filosofia e teologia pela Universidade de Munique, Alemanha.
Rosalvo Salgueiro, também é reconhecido como um nome importante da Teologia da Libertação. Além de filósofo e teólogo é também mestre em Direito Penal Internacional pela Universidade de Granada, Espanha.

Ver: 
https://leonardoboff.wordpress.com/2012/04/03/belo-monte-rolo-compressor-por-cima-de-todos-nos-denuncia-o-bispo-erwin-krautler-do-xingu/


 
 

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