Residencial São Carlos do Brasil: dignidade, autonomia e organização popular por uma terra de todos
Movimento Terra de Deus, Terra de Todos entrega 2331 apartamentos em Embu das Artes - SP
por Victor Rodrigues
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| Residencial São Carlos do Brasil em Embu das Artes - SP, 2025. (Imagem: Paulo César) |
Unidades de 48 m² com piso laminado, dois dormitórios, sala, cozinha, banheiro e área de serviço. Condomínio com playground, salão de festas, churrasqueira, mercadinho e lavanderia nas áreas comuns. Tecnologia de ponta nos elevadores, portaria 24h com reconhecimento facial, câmeras de segurança e vagas de carro rotativas. Design moderno e acabamento da melhor qualidade. Essa poderia ser a descrição de um apartamento encontrada em folhetos de propaganda de novos empreendimentos de alto padrão a preços nada baratos, mas é a descrição de uma unidade de habitação popular. E mais do que isso, é a descrição de uma conquista.
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| Família em vistoria de seu apartamento no Residencial São Carlos do Brasil, 2025. (Arquivo pessoal) |
No ano de 2026 o Movimento Terra de Deus, Terra de Todos finaliza a entrega do complexo Residencial São Carlos do Brasil no Jardim São Luís em Embu das Artes - SP, com 10 condomínios e 2.331 unidades habitacionais. O complexo entra para a lista dos maiores conjuntos habitacionais do país e é fruto de 18 anos de muita luta e organização junto ao povo.
Ter uma moradia digna é um direito básico que está previsto na lei, que deveria atender cada cidadão e cidadã. É para garantir esse direito que o Movimento Terra de Deus, Terra de Todos surge e trabalha há 40 anos. “Foi uma entidade que a gente criou para uma missão e a missão não terminou, só vai terminar quando todas as famílias do Brasil tiverem casas com dignidade. Enquanto não, a realidade é o desafio e o trabalho continua”, declara o Doutor Rosalvo Salgueiro em entrevista ao programa Olhe nos meus olhos.
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| Primeira diretoria do Movimento Terra de Deus, Terra de Todos em terreno no Jd. Nélia, Zona Leste de São Paulo - SP, 1984. (Arquivo pessoal) |
O papel do movimento é representar as reivindicações da sociedade e pressionar para que sejam atendidas. Tudo da maneira mais transparente possível e com participação popular em todo o processo. As pessoas que, ao final, recebem suas moradias, participam de todas as etapas do processo, desde a aquisição do terreno.
Em reuniões mensais, são orientadas sobre a legislação, sobre a regularização de documentos e discutem detalhes que vão da infraestrutura de toda a obra até a criação de comissões e grupos de trabalho para formar agentes comunitários, que serão responsáveis pelo bom funcionamento do complexo, deliberando sobre a prestação de serviços no local, preservação do patrimônio e do ambiente, regulamento interno e administração condominial. As reuniões só acabam quando a última dúvida é ouvida. Além disso, a situação particular de cada família é considerada e a equipe do movimento oferece atendimento individual para cada caso.
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| Equipe em visita à obra em São Mateus, Zona Leste de São Paulo - SP, 2025. (Arquivo pessoal) |
Para além de garantir o cumprimento da lei na construção de moradias dignas, o movimento educa a população para ter autonomia e conhecimento de seus direitos, construindo cidadania. "A gente não dá casa pra ninguém, a gente cria a situação para que a pessoa possa ter a casa", diz Rosalvo, fundador da entidade. "A população desorganizada não consegue nem aquilo que está na lei, que a lei lhe garante. Quando a gente está organizado, se for preciso, a gente muda a lei em nosso benefício, então em função disso é que existe o Movimento Terra de Deus, Terra de Todos", completa.
Programas como o Minha Casa, Minha Vida do Governo Federal, o Casa Paulista de habitação popular do Governo do Estado e o Pode Entrar, da Prefeitura de São Paulo, existem como conquistas dos movimentos. É através da mobilização popular que as leis para colocar esses programas em prática são criadas e é também essa mobilização que pressiona os governos para que as necessidades da população sejam atendidas e o dinheiro público seja aplicado da maneira correta.
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| Rosalvo Salgueiro em reunião com as famílias cadastradas no empreendimento em Embu das Artes - SP, 2024. (Arquivo pessoal) |
Rosalvo Salgueiro, líder do Movimento Terra de Deus, Terra de Todos, tem vasta trajetória na área. Foi coordenador dos programas de habitação nos mandatos do ex-governador de São Paulo e atual vice-presidente da República Geraldo Alckmin, é Conselheiro Municipal de Habitação na Prefeitura de São Paulo desde 2006 e é consultor do atual Minha Casa, Minha Vida do Governo Federal. Sua experiência passa pela organização política e atuação nos movimentos sociais e sindical, pelo meio acadêmico e pela atuação nas comunidades eclesiais de base ligadas à Teologia da Libertação.
O Movimento Terra de Deus, Terra de Todos é fruto de toda essa trajetória. Em 1976 foi fundada a organização Serviço Paz e Justiça - SERPAJ na América Latina junto de Adolfo Pérez Esquivel, vencedor do Prêmio Nobel da Paz em 1980. Em 1984, filiado a essa organização e carregando os valores da Igreja Católica Apostólica Brasileira sob o lema de “Deus, Terra e Liberdade”, nasce o movimento. De todos e para todos, sem distinção de crença, gênero ou etnia.
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| Visita de Adolfo Esquivel ao condomínio no Jd. Nélia, Zona Leste de São Paulo - SP, 1986. (Arquivo pessoal) |
Hoje, em 2026, depois de entregar mais de 40 mil unidades habitacionais, além de outras 30 mil com entidades parceiras, o Movimento Terra de Deus, Terra de Todos deixa mais uma marca na história da luta pela dignidade do povo com o complexo Residencial São Carlos do Brasil. O nome homenageia Dom Carlos Duarte Costa, fundador da Igreja Brasileira, reafirmando as raízes da instituição.
"Deus fez a terra e deu para todos igualmente, não apenas para alguns. Foi o egoísmo, foi o pecado humano que criou a escritura, o dinheiro e assim por diante, e tirou a grande maioria da terra. Hoje as pessoas vivem sem ter lugar pra morar". Rosalvo diz essas palavras com a propriedade de quem dedicou a vida inteira no combate a esse tipo de desigualdade. Como quem sabe que o trabalho continua e continuará. Até que a dignidade seja plena. Até que as palavras de Isaías 65:21, que dizem que as pessoas“edificarão casas e nelas habitarão, plantarão vinhas e comerão seus frutos” se tornem realidade.












