Educação, história e cultura popular: confira como foi a terceira edição do Maio para a Liberdade
por Victor Rodrigues
A 3ª edição do evento anual “Maio para a Liberdade” aconteceu no dia 16 de maio de 2026 no galpão do Movimento Terra de Deus, Terra de Todos, em Ermelino Matarazzo e teve como tema central a educação.
Participaram do evento Bruna Salgueiro, a Família Sankofa e o grupo É Tempo de Samba, trazendo discussões sobre acesso ao ensino, letramento racial, educação familiar e valorização da história e da cultura através do samba e das tradições do povo negro.
A equipe da Revista Centelha esteve presente e abaixo você pode conferir um relato completo do dia a partir das principais falas das pessoas participantes.
A programação oficial começou com Bruna Salgueiro discutindo a importância do acesso ao ensino superior e os obstáculos históricos e sociais para isso. É fundamental que o povo esteja presente na universidade, valorizando todo o conhecimento popular e ancestral que foi negado e apagado.
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| Bruna Salgueiro, pedagoga, mestra e técnica social do Movimento Terra de Deus, Terra de Todos |
“Entrar na universidade é também dar as cartas do jogo. Refletir, pensar, fazer as leis, dar as aulas, se organizar. É muito importante que a gente consiga chegar até a universidade, até a graduação, a pós-graduação, para fazer a coisa acontecer. Não necessariamente a gente, mas alguém da nossa comunidade”.
Bruna completou, citando avanços conquistados na área da habitação como exemplo: “Por que hoje é importante a habitação? A gente tá aqui no Movimento Terra de Deus, Terra de Todos, lutando por moradia, ganhando prêmio, é maravilhoso. Mas isso aqui era crime. Por que não é mais crime? Porque teve pessoas que se organizaram e lutaram, porque você tem pessoas que estão na universidade, na engenharia, no direito, no serviço social e que estão construindo um pensamento onde moradia é direito de todo mundo, então é preciso ter uma política pública pra isso”.
Lembrou também como a academia foi usada para legitimar o racismo e o colonialismo, ressaltando ainda mais a importância de ocupar esses espaços e disputar as narrativas.
“O racismo é um projeto. As pessoas foram exploradas. Quando começou a colonização e as grandes navegações, eles (europeus) começaram a querer dominar o território da América e, na dinâmica com a África, pegaram pessoas para transformar em um objeto, numa máquina de fazer o que eles queriam fazer.
Mas isso não fazia sentido, você não pode transformar uma pessoa em objeto. Aí se criou, para justificar esse tipo de coisa que já estava acontecendo, o racismo. E o racismo não é só chamar alguém de macaco, não é só falar ‘isso é coisa de índio’. O racismo é toda uma estrutura que justifica, que chega ao ponto de dizer que uma pessoa negra está doente porque não aceita o chicote”.
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“Sankofa é um Adinkra, que é como se fosse um sistema de letras do povo Akan de Gana. Ao invés de ter o A, B, C, eles tinham desenhos. O Sankofa basicamente significa olhar para trás, entender o que deu certo e o que deu errado, ressignificar para esse momento e construir um futuro mais potente”, disse Mariana sobre a escolha do nome social da família.
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Mariana falou também sobre a importância das famílias e comunidades como forma de resistência a um sistema social opressor e injusto.
“Em qual momento aquilo que é cultural das nossas famílias, aquilo que é tradição da nossa comunidade deixou de ser tão importante? E por que isso é tão relevante quando a gente fala de educação? O que vai fazer seu filho lidar com racismo, não é o que a escola ensina, porque a escola nem sabe lidar com isso”.
“Quando a gente pega, por exemplo, tradições do povo, como a capoeira. Por que a capoeira foi desenvolvida como foi? Porque era uma forma de lidar com o que aquelas pessoas escravizadas estavam vivendo. Sem a tradição, sem a educação familiar, sem essa educação doméstica, isso não teria acontecido. Eles ficariam apanhando e apanhando, não teriam desenvolvido estratégias pra fugir, pra se libertar dos opressores”.
Rafael acrescentou:
“Quando a gente fala de educação familiar, a gente tem que olhar pra história. O que aconteceu antes da nossa existência nesse território é muito importante, mas é muito perdido naquilo que se diz educação convencional, porque a educação convencional desde 1930 tem o único objetivo de formar força de trabalho.
Eles ensinam matérias, mas numa perspectiva da gente ser uma força produtiva. Ensinam a gente a decorar a agenda acadêmica, mas não a saber porque as coisas são do jeito que são. A partir do momento em que a gente sabe como as coisas são e porque são daquele jeito, a gente desenvolve pensamento crítico, e o pensamento crítico é a maior arma para combater a sociedade do jeito que ela é”.
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Rafael também destacou uma série de aspectos históricos sobre a construção da sociedade brasileira, fundamentada nas relações escravocratas, destacando a questão da moradia:
“A relação trabalhista no Brasil é extremamente consolidada e fundamentada no período escravocrata, assim como a relação de moradia. A relação de moradia traz a perspectiva escravocrata mais explícita que a gente pode ter. Saúde, educação e moradia, mas moradia é a primeira, porque sem casa você não tem estrutura. Ali começa a estrutura, você forma sua família com um lar, com um teto, vocês não estão desamparados.
Quando eles desamparam a gente na moradia, eles fazem a gente aceitar subemprego pra pagar um aluguel que não faz sentido, pra comprar uma comida extremamente cara. Então o dia 14 de maio de 1888 está vivo até hoje. É muito importante a gente ter essa consciência. Se não deram terras para os nossos ancestrais, logo a gente não tem herança. A gente precisa estar bem atento a isso, pra a gente não se culpabilizar sobre uma estrutura que foi formada para priorizar pessoas que não se parecem com a gente”.
Mariana explicou ainda sobre a importância do letramento racial:
“Letramento racial não é uma coisa só para pessoas pretas. O letramento racial é esse resgate das informações, da história antes de qualquer coisa. Por que as pessoas pretas são tratadas como são tratadas nesse país? Por que a gente tem um bairro como Guaianases, um bairro como a Santa Cecília e um bairro como Higienópolis? O que acontece para que isso seja possível e a gente normalize? O que acontece para que uma pessoa preta que vai trabalhar em uma casa de família, em uma portaria em Higienópolis, ela basicamente se desenvolva sabendo que ela tem que se vestir de uma forma específica, que ela precisa se comportar de uma forma específica e que qualquer coisa que acontecer vai ser culpa dela?”
“Quando a gente fala de letramento racial, a gente não está falando de dar privilégios para pessoas pretas, para pessoas indígenas ou para qualquer tipo de pessoa que não está dentro da homogeneidade que a sociedade espera. A gente está falando de melhorar a vida de todo mundo. E quando a gente traz isso pra dentro das casas, a gente tá assegurando que as próximas gerações vão saber se defender, se proteger e se organizar.”
A roda de conversa foi bastante dinâmica e emocionante. Cada pessoa presente teve sua participação, se apresentando, fazendo perguntas e comentários e compartilhando experiências vividas.
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O longo e precioso dia de atividades terminou em samba, com o grupo É Tempo de Samba cantando a história e a cultura afro-brasileira a partir de composições clássicas.
“O samba nada mais é do que a verdadeira MPB (música popular brasileira). O Brasil é conhecido pelo samba, a maior expressão popular do brasileiro é o samba. Isso acontece devido a uma conjunção de valores que o samba explodiu. O que a gente reproduz aqui, é o samba da década de 20, que foi constituído no Rio de Janeiro, mas não só por cariocas.
Geograficamente foi no Rio que foi fundado esse estilo de samba, mas o Rio era a capital, então teve influência de vários locais. O samba toma essa frente de contar a história de tudo, o samba cantou tudo. A ebulição, a evolução de tudo fez com que a gente tenha composições em todas as áreas praticamente”, comentou Denis de Lira, integrante do grupo.
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| Grupo É Tempo de Samba celebra a história e a cultura do povo preto através da arte |
“Esse nosso repertório trata desde o transporte, do trânsito, da diáspora africana, com o sofrimento dentro dos navios negreiros, até a chegada aqui. Fala sobre alguns personagens negros que se tornaram ilustres, famosos, mas, acima de tudo pessoas que de alguma forma lutaram pra que o sofrimento fosse minimizado, pra que a escravidão fosse extinta e para que o racismo não fosse mais perpetuado nesse país”.
O Maio para a Liberdade de 2026 foi um encontro repleto de sabedoria e sensibilidade. O conhecimento e o estudo são fundamentais para a construção de um mundo mais justo. Quando isso é feito do povo para o povo, se torna ainda mais potente. É com muito carinho e orgulho que a Revista Centelha traz esse relato e celebra mais uma edição desse evento.















