Início da Copa do Mundo é marcado por discriminação e tensão internacional


por Victor Rodrigues

Gianni Infantino, presidente da FIFA, e Donald Trump, presidente dos EUA. Foto: Reprodução / Evan Vucci AP


Futebol e política se misturam e muito. Desde o início, quando era restrito às elites e foi popularizado entre os trabalhadores, driblando as proibições, o futebol reúne e representa tantas camadas e detalhes da sociedade que jamais poderá ser visto apenas como um mero lazer. A FIFA, além de entidade organizadora do esporte, é um notável agente da política internacional e tem um histórico particular de simpatia com regimes autoritários.


Antes mesmo da bola rolar na Copa do Mundo de 2026, o evento já se encontra mergulhado em polêmicas, insegurança e lobby político. O torneio tem como sede principal os Estados Unidos, como parte de um grande acordo que começou a ser tecido em 2014, envolvendo o escândalo de corrupção do FIFAgate. Canadá e México entraram como sedes secundárias em um falso aceno de boa vizinhança.


Desde então, Estados Unidos e FIFA vêm tomando medidas bastante duvidosas, autoritárias e impopulares, transformando a Copa em um grande jogo que influenciará tanto o futuro do futebol quanto da política mundial. Confira abaixo o que já aconteceu de destaque até então.


INDISPOSIÇÃO COM OS PAÍSES-SEDE

A edição do torneio é sediada por Estados Unidos, Canadá e México. Nos últimos anos, Canadá e México têm sofrido recorrentes ameaças e intervenções em diversas frentes: interferência nos processos eleitorais, pressão midiática, ameaças de invasão militar e até mesmo de anexação do território. O clima entre as três nações não é dos melhores.


ESCOLHA DE LADO NA EXCLUSÃO DE SELEÇÕES

Enquanto a Rússia, por estar em guerra com a Ucrânia, está banida de todas as competições FIFA e UEFA - incluindo o futebol de clubes -, Estados Unidos e Israel, que há anos seguem bombardeando nações e cometendo genocídios e crimes de guerra ao bel-prazer, sequer foram ameaçados de punição. O governo estadunidense, aliado político da FIFA, ganhou de presente uma Copa para sediar e Donald Trump recebeu o "Prêmio da Paz da FIFA - O Futebol Une o Mundo", inventado em 2025 para consolá-lo após a perda do Nobel da Paz.


TRATAMENTO AO IRÃ

O Irã, bombardeado por Estados Unidos e Israel frequentemente nos últimos anos - e atualmente em guerra com a dupla - está vivendo um clima hostil no torneio que "une as nações". Sua delegação está proibida de ficar nos EUA e enfrentará uma logística complexa para disputar a competição. A seleção está sediada no México e poderá ir ao país vizinho apenas para jogar, devendo retornar imediatamente após as partidas. Além disso, boa parte da delegação teve vistos negados e foi impedida de exercer sua profissão na Copa. Por fim, a cota de ingressos para a federação Iraniana foi retirada, impossibilitando o comparecimento da torcida nos jogos.


Omar Artan é impedido de entrar nos EUA e está fora da Copa

MELHOR ÁRBITRO DO CONTINENTE AFRICANO É BARRADO

Omar Artan, árbitro da Somália que foi eleito o melhor de 2025 pela Confederação Africana, teve sua entrada nos EUA negada após 11 horas de interrogatório por suspeita de "ligação com o terrorismo" e está fora da competição. Ele seria o primeiro profissional somali a apitar uma Copa do Mundo. A Somália é mais um país na longa lista dos que são frequentemente bombardeados por Estados Unidos e Israel e recentemente foi alvo de falas extremamente racistas de Trump.


MAIS PROBLEMAS COM VISTO

Reforçando a política anti-imigração de Donald Trump, outros países vêm enfrentando problemas para entrar nos Estados Unidos. Atualmente, cidadãos de 19 países têm sua entrada restrita, incluindo participantes da Copa, como Haiti e o próprio Irã. A delegação da África do Sul, outro desafeto dos EUA, teve sua logística atrasada por problemas com a documentação.


GOLEADOR DO IRAQUE É INTERROGADO POR 7 HORAS

Aymen Hussein, principal jogador da seleção iraquiana, foi detido e interrogado por 7 horas ao chegar nos EUA, atrasando toda a logística da delegação. A equipe de segurança chegou a alegar que o jogador "foi confundido". O Iraque é mais um país na lista de desafetos do país-sede.


Delegação de Senegal passa por revista antes de embarque. Foto: Reprodução/X


DELEGAÇÕES SENEGAL E UZBEQUISTÃO PASSAM POR REVISTA

O tratamento dado às delegações de Senegal e Uzbequistão em território estadunidense gerou uma repercussão negativa mundial. Ambas equipes passaram por revistas rigorosas antes de jogos amistosos. Representantes das delegações negaram abusos nos procedimentos, mas o rigor seletivo que vem sendo aplicado a determinadas nacionalidades incomodou a comunidade internacional.


REPÓRTER DA GLOBO RELATA PROCEDIMENTO RACISTA

Karine Alves, jornalista correspondente da Globo, afirmou ao vivo que passou por um constrangimento ao ser revistada no aeroporto. “Quando eu cheguei nos Estados Unidos, eu não entendi direito, mas pediram para eu levantar o meu cabelo, só que de uma forma um pouco ríspida. E eu fiquei sem ação, mas consegui entender no final de tudo, e levantei o cabelo”, declarou. “Muitas mulheres negras passam por isso e reclamam disso na chegada aqui aos Estados Unidos. Foi algo muito pontual, mas que outras colegas não passaram por aqui”, completou.


APÓS PRESSÃO INTERNACIONAL, ONU FAZ DECLARAÇÃO

Diante da grande repercussão dos acontecimentos e das fortes críticas à conivência da FIFA em diversos setores internacionais, o comissário dos Direitos Humanos da ONU falou aos jornalistas e condenou as práticas discriminatórias. "Espero sinceramente que haja uma profunda reflexão sobre como a aplicação das leis de imigração está impactando os direitos humanos e a dignidade humana, e que, especialmente para a Copa do Mundo, haja uma revisão das políticas que infelizmente temos visto prevalecer, principalmente nos EUA". Pediu para que os problemas "com perfilamento racial" e "fiscalização de imigração" não afetem o torneio e que a desumanização de imigrantes e refugiados chegue ao fim. Por enquanto nenhuma medida prática foi tomada.


Delegação do Irã chega a Tijuana no México. Equipe está proibida de pernoitar nos EUA (Foto: Reprodução/REUTERS Victor Medina)

O que está em jogo é muito mais que uma taça de ouro. A Copa de 2026 acontece como um instrumento de demonstração de força dos Estados Unidos diante da sua crescente impopularidade no planeta. Mídias especializadas, órgãos de defesa dos direitos humanos, delegações, jogadores e ex-jogadores vêm em coro denunciando a falta de preparo do país em sediar o evento e a conivência da FIFA com a situação.


A Copa do Mundo é, supostamente, um evento feito para celebrar a paz e a união entre as nações através do esporte mais popular do mundo. O principal país sede da maior edição da história, entretanto, parece não estar de acordo com isso.


Rosalvo Salgueiro, liderança do Movimento Terra de Deus, Terra de Todos e representante da SERPAJ, declara: "Os Estados Unidos não podem mais ser sede de organizações internacionais, como a ONU, OEA e outras organizações, e nem abrigar torneios e eventos internacionais porque eles não respeitam as nações e passamos por esses vexames e por esses desrespeitos aos direitos humanos".