Futuros Possíveis: bancos comunitários, economia solidária e projeto de transição energética justa e popular transformam o Brasil em referência mundial

por Victor Rodrigues


Encontro nacional em Fortaleza reuniu diversas frentes para debater como as finanças solidárias podem fortalecer comunidades, enfrentar as mudanças climáticas e ampliar a autonomia dos territórios.


Encontro realizado pela Rede Brasileira de Bancos Comunitários aconteceu nos dias 04 a 07 de maio em Fortaleza-CE. (Foto: reprodução / Instagram oficial da Rede)

Em 1998, no Conjunto Palmeiras, no estado do Ceará, foi fundado o Banco Palmasprimeiro banco comunitário do Brasil. A instituição surgiu em uma região periférica a partir da organização popular, com o objetivo de implementar ações de desenvolvimento local e inclusão social através da economia solidária, enfrentando as desigualdades causadas por um sistema refém do lobby financeiro e do capital improdutivo.


Desde então, a experiência se expandiu para uma ampla rede nacional, com mais de 180 bancos comunitários nas cinco regiões do país, fazendo do Brasil uma referência mundial na área.


No mês de maio de 2026, a cidade de Fortaleza sediou o VI Encontro Nacional da Rede Brasileira de Bancos Comunitários, que recebeu o Seminário Internacional "Poupança, Crédito e Moedas Sociais: as Finanças Solidárias como catalisador para as adaptações às mudanças climáticas e transição energética justa”.


O evento reuniu representantes da Rede Brasileira de Bancos Comunitários, de movimentos sociais, universidades e institutos de pesquisa e tecnologia, instituições públicas e organizações internacionais.


O Movimento Terra de Deus, Terra de Todos (MTDTT) esteve presente para conhecer de perto essa importante tecnologia social, ampliar a rede de parcerias e implementar essas práticas em benefício da população atendida pelo trabalho da associação.


Foto: reprodução / Instagram oficial da Rede


ENERGIA SOLAR QUE GERA RENDA E AUTONOMIA


Não foi por acaso que a experiência do Banco Palmas se tornou referência global. O projeto integra economia solidária, enfrentamento às mudanças climáticas e organização popular para gestão dos recursos, estabelecendo uma estrutura complexa de desenvolvimento de autonomia.


No Conjunto Palmeiras, usinas fotovoltaicas comunitárias produzem energia limpa que gera créditos na conta de luz das famílias. Parte desse benefício vira um “cashback”, que retorna em forma de moeda social, utilizada na rede de comércios locais credenciados ao Banco Palmas, fortalecendo a economia do território.


Visita à Usina Comunitária Palma Solar. (Foto: reprodução / Instagram oficial da Rede).


Durante o evento, participantes puderam visitar as Usinas Solares Comunitárias e acompanhar a inauguração da usina Palma Solar 3. O encontro também celebrou a operação da plataforma E-dinheiro Socialsistema digital das moedas sociais que inclui aplicativo, internet banking e cartão, além do lançamento do meio de pagamento por biometria Palma da Mão, democratizando o acesso ao sistema financeiro.


Na carta oficial do encontro, a Rede Brasileira de Bancos Comunitários apresentou um projeto de Transição Energética Justa e Popular articulado às finanças solidárias e às moedas sociais ambientais. Em parceria com a Petrobrás, universidades e institutos federais, a Rede vem desenvolvendo uma pesquisa colaborativa para que as energias renováveis sejam geridas democraticamente pelos territórios.


“As moedas sociais verdes já em circulação em comunidades de diferentes territórios, de norte a sul do país, são, simultaneamente, instrumentos de mitigação climática, de participação democrática, de valorização das economias locais e de resistência ao mercado de carbono”, reforça a carta.


Foto: arquivo pessoal.


Outra pauta importante do encontro foi a concepção do Sistema Nacional de Finanças Solidárias (SINAFIS). Em diálogo com representantes dos bancos comunitários, grupos universitários de pesquisa, representantes do poder público e de diversas iniciativas de finanças solidárias, a Rede estabeleceu a criação do sistema como tarefa estratégica para os próximos anos.


A proposta do SINAFIS é compor uma diretoria de finanças solidárias dotada de estrutura administrativa própria, capaz de viabilizar e desenvolver coletivamente instrumentos que reconheçam, fortaleçam, incentivem e eduquem a população para as práticas ligadas às moedas sociais e à economia solidária.


As reivindicações do encontro incluem ainda pautas como a aprovação do Marco Legal das Moedas Sociais, a regulação de juros abusivos e ampliação do acesso ao crédito para empreendimentos populares, a viabilização do pagamento de benefícios sociais em moeda social e podem ser encontradas na íntegra na carta oficial citada.


ORGANIZAÇÃO POPULAR COMO TECNOLOGIA


A participação do MTDTT no evento foi fundamental para expandir o conhecimento e contribuir com a atuação do movimento em construir uma rede de comunidades fortes para além da conquista dos conjuntos habitacionais. Comunidades que conquistem autonomia compreendendo o mundo em que vivem.


Alexandre e Bruna, representantes do MTDTT, ao lado de Joaquim, fundador do Banco Palmas e organizador do evento. (Foto: arquivo pessoal).

Além do objetivo de conhecer a dinâmica de implementação da energia solar nas políticas de habitação popular, observando como o Banco Palmas faz essa implementação nas regiões de baixa renda, a equipe teve um contato mais aprofundado com o universo da economia solidária, compreendendo a concretude dessas ações diante da realidade prática.


Ao lado da sustentabilidade ecológica e do impacto no abatimento dos valores das contas de luz, essas iniciativas trazem alternativas aos mecanismos de circulação do dinheiro na sociedade e colocam a população como protagonista na administração dos recursos e nas relações mercadológicas.


Foto: arquivo pessoal.

Isso pode dar um suporte real para a saúde financeira das famílias, criando autonomia nas gerações atuais e educando as próximas. A inovação nasce, sobretudo, da experiência cotidiana das pessoas que enfrentam as desigualdades e constroem soluções coletivas.


“Nossos pés estão nos territórios. Nossas práticas constroem outra economia, a serviço da vida e da justiça social”. As palavras que encerram a carta oficial do encontro apontam  o futuro possível que queremos construir, onde a economia esteja a serviço das pessoas, a tecnologia traga qualidade de vida com responsabilidade ambiental e a organização popular continue sendo a principal ferramenta para transformar o presente.