Grupo Da Mata transforma zona de descarte de lixo em área de preservação e espaço cultural na Zona Leste de São Paulo

Coletivo de moradores e moradoras do bairro recupera zona remanescente de bioma da Mata Atlântica em espaço urbano através de muito trabalho, estudo e articulação em rede

por Victor Rodrigues

O que já foi um lugar abandonado, utilizado como ponto de descarte de lixo e entulho, é hoje uma área verde com solo fértil, plantas saudáveis e diversidade de espécies. Fruto de muito trabalho, estudo e paciência do Grupo Da Mata, que transformou uma infestação de escorpiões em um espaço de mata nativa em plena Zona Leste da cidade de São Paulo.

O Grupo Da Mata resolveu ocupar definitivamente a área em 2017. O acúmulo de lixo e entulho atraiu escorpiões para a praça, que fica próxima a uma creche, levando a prefeitura a fazer uma limpeza com a remoção do solo. O coletivo, então, aproveitou a ocasião para assumir os cuidados do espaço e evitar que voltasse a ser um ponto de descarte.

"Pela questão cultural as pessoas já tinham entendido que aqui era um lugar de jogar as coisas fora, então elas iam continuar fazendo isso. A gente veio com as plantas para fazer uma barreira física (...) mas também porque a gente quer gostar do nosso bairro, do nosso território. Tem muito essa questão estética com as plantas para a gente se sentir bem de estar aqui, de querer cuidar", conta Uriel Lira, bibliotecária e integrante do grupo.

Início da ocupação do espaço / Primeiros anos de resultado. Imagem: Geosampa.

Iago e Yghor Quinas, integrantes do grupo e irmãos nascidos e criados no bairro, contam que eles mesmos, quando crianças, eram instruídos pelos adultos a jogar entulho no local quando faziam obras em casa. Conhecendo a situação, Yghor conta que o processo aconteceu aos poucos através da ação:

"Era um trabalho a partir do exemplo. A pessoa jogava lixo, a gente ia lá e tirava o lixo sem falar nada. Até que demorou anos desse trabalho e desse espírito e as pessoas começaram a trazer planta".

Após a limpeza, o grupo foi bastante estratégico. Os conhecimentos e a prática da agroecologia foram fundamentais nessa etapa para, a partir da observação das condições e dos poucos recursos disponíveis, atuar da melhor forma.

O solo, maltratado e com muitas pedras, precisava ser recuperado. Além disso, não há água encanada no local. A solução foi subir o solo, adubá-lo e fazer uma proteção, trabalhando com os ciclos da natureza para potencializar o ambiente.

Yghor passou 2 anos recolhendo os resíduos orgânicos da creche onde seu filho estudava, como cascas de frutas e vegetais, para utilizar como biomassa e adubar a terra. Com os galhos e folhas recolhidos na roçagem da praça e em trabalhos externos de jardinagem, foi feita uma cobertura de matéria seca para manter a umidade ali.

Então foi feito o plantio de espécies mais resistentes, como o boldo, para fortalecer o ecossistema, até que foi possível diversificar as espécies e trabalhar com a vegetação nativa. Além de cuidar das espécies já presentes, o grupo trouxe mudas conseguidas em parceria com outras iniciativas. O espaço, hoje, é mapeado como remanescente de bioma da mata atlântica.

Os benefícios desse trabalho são muitos e afetam todo mundo. A reconstrução da vegetação evita a erosão, protege o morro de desabamentos, abafa o som da avenida, filtra a poluição e melhora a qualidade do ar.

Outra parte bastante importante do trabalho é o envolvimento da comunidade, reforça Uriel:

"Além de plantar, a gente também pensa em como ter áreas em que a gente pode fazer reunião, conversa, festa, fogueira, pra ser realmente uma coisa integrada. A gente acaba trabalhando nesse lugar da cultura, então é a questão ambiental com a cultura porque a gente sabe que é a cultura que vai mostrar e fazer com que as pessoas pensem 'eu quero que esse espaço exista'".

Yghor completa:

"A gente quer que a comunidade use esse espaço. Através do conhecimento de botânica, de arborização urbana, trazer significado pras coisas. Isso aqui não é mato, aqui a gente criou um espaço biofílico. Isso é mata. Aqui tem ervas medicinais que podem curar sua tosse, tomar um cházinho pra dormir. A gente trouxe uma coleção botânica de espécies pra cá. Conforme as pessoas da comunidade vêm aqui, a gente apresenta para que ela sinta que isso é dela também, pra não ficar uma coisa distante. É algo feito para a comunidade mesmo".

Com o tempo, a vizinhança foi desenvolvendo uma relação de cuidado e de pertencimento. Uns vigiam o local, outros fornecem água, mudas, materiais, cada um de acordo com o que pode.

Rose Galia, moradora da região, descobriu o projeto  na época da pandemia, se juntou ao coletivo e hoje desempenha um papel importante na relação com o poder público. Servidora pública e com um histórico de participação em mutirões e projetos de educação ambiental, exerce seu segundo mandato como Conselheira Municipal do Meio Ambiente.

"Sempre trazendo a importância da gente conhecer a legislação municipal, no que essas leis podem nos proteger de certa forma. Se a gente não tem esse conhecimento, como que a gente vai atuar, como que a gente vai forçar o estado, o poder público, a garantir que existam essas áreas de proteção dentro de espaços urbanos?", lembra Rose.

Todo o trabalho é voluntário e por isso as habilidades de cada integrante são fundamentais. Enquanto Rose traz o conhecimento da legislação e a articulação com órgãos públicos, Uriel cuida da organização do coletivo, da escrita dos projetos, da comunicação e da articulação em rede. Yghor segue fazendo cursos de especialização, aprimorando as pesquisas e colocando mais a mão na massa junto com Iago, também sempre estudando.

Outra atuação importante do Grupo Da Mata é a atuação em rede. O grupo mantém intercâmbio com hortas comunitárias, coletivos e iniciativas de educação ambiental. Com regularidade, outros grupos são convidados para visitas, formações e mutirões no local e, com a mesma frequência, o Da Mata visita outros espaços e participa de feiras para trocar conhecimentos e espalhar mudas produzidas.

"A gente acha bem importante que tenham várias iniciativas. A gente tem condições de cuidar desse espaço, mas são centenas, milhares de espaços que precisam. Toda hora que a gente vê um terreno baldio a gente já pensa 'ali daria alguma coisa'", diz Uriel.

A boa relação com o meio ambiente é um esforço coletivo. Sua preservação ou destruição afetam todas as áreas da vida, porque todos os seres fazem parte dele. Por isso é fundamental uma integração total das atividades e nesse quesito a agroecologia - que une o ecológico, o econômico e o social - é uma ciência riquíssima.

Participação do MTDTT em atividade com Grupo Da Mata.

Em junho de 2026, integrantes da comissão de meio ambiente do Movimento Terra de Deus, Terra de Todos e da Revista Centelha visitaram o espaço para conhecer o projeto e participar de uma atividade de formação. É de extrema importância que os movimentos de habitação estejam integrados com a questão ambiental, pois sem terra não existe moradia.

A visita resultou em uma reportagem completa que está disponível em nosso canal no Youtube:


PROGRAMA PERFIL: FUTUROS POSSÍVEIS COM GRUPO DA MATA

FICHA TÉCNICA:
Equipe Revista Centelha - Bruna Salgueiro e Victor Rodrigues
Câmera, Roteiro e Edição - Victor Rodrigues
Música - Ejuku
Participantes Grupo Da Mata - Uriel Lira, Yghor Quinas, Iago Quinas e Roseli Gaia