Encontro dos Povos e Festa da Semente Crioula reforçam a importância dos saberes tradicionais e da agricultura popular

Evento aconteceu no Paraná e contou com participação de comunidades locais, universidades e movimentos sociais na ABAI, parceira do MTDTT

por Victor Rodrigues

No mês de agosto aconteceu o Encontro dos Povos e a Festa da Semente Crioula na sede da ABAI na cidade de Mandirituba, Paraná.

A ABAI (Associação Brasileira de Amparo à Infância) é uma instituição fundada por Marianne Spiller ligada ao SERPAJ (Servicio Paz y Justicia), parceira histórica de organizações da teologia da libertação e do Movimento Terra de Deus, Terra de Todos. Além de atuar como um espaço de acolhimento e educação, recebe anualmente a Festa da Semente Crioula e faz parte dos Guardiões das Sementes.

O trabalho de Marianne e da ABAI tem sido de fundamental importância para o fortalecimento de comunidades rurais na região do Paraná. A Revista Centelha já fez um perfil completo sobre a trajetória de Marianne, que pode ser conferido neste link.

Rosalvo Salgueiro, do MTDTT e Marianne Spiller, da ABAI

O evento deste ano reuniu representantes de comunidades indígenas, quilombolas, caiçaras e faxinalenses, de universidades públicas e particulares e de movimentos sociais como o MTDTT (Movimento Terra de Deus, Terra de Todos) e MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra).

Esse tipo de encontro é um importante momento de fortalecimento de uma tradição ancestral de relação e cuidado com a terra. As Festas das Sementes Crioulas e os Guardiões das Sementes são fundamentais para a proteção da biodiversidade brasileira e mobilizam comunidades inteiras.

As sementes crioulas são espécies nativas preservadas há anos e passadas de geração em geração, sem agrotóxicos ou modificações genéticas. Junto das sementes, são também preservadas as tradições e os conhecimentos ancestrais.

Em festivais e feiras regulares que acontecem em todo o Brasil, agricultores e guardiões de sementes fazem trocas dessas sementes e saberes, promovendo a agrobiodiversidade e a soberania alimentar.

Diante do violento monopólio das grandes empresas do agronegócio, as sementes crioulas são símbolos de resistência e sobrevivência. Além de devastar áreas extensas com a monocultura, prejudicando o ecossistema, essas empresas controlam o mercado de sementes, com mecanismos que tornam produtores de alimentos reféns desse sistema.

As sementes vendidas são inférteis, o que não permite que produtores plantem uma nova safra a partir da colheita. Isso obriga a compra de novas sementes dessas multinacionais, prendendo a produção a esse esquema predatório de lucro.

A cultura das sementes crioulas é uma tradição de enfrentamento a essa lógica do agronegócio. Além de promover o acesso a uma colheita saudável e proteger a biodiversidade nativa, garante dignidade aos produtores que realmente se preocupam em alimentar o país.

O Brasil é um país gigante pela própria natureza e enquanto povo não podemos permitir que essa natureza seja sequestrada pelos interesses do agronegócio. Cada brasileiro tem o direito de desfrutar dessa terra, bem como o dever de cuidar dela com respeito e sabedoria.